O pecado dos nóias

Qual o seu maior desafio? Qual foi sua luta mais intensa? Em algum momento pensou em desistir?

Visitei um casal numa tarde de sábado esperando encontrar um de seus filhos, que é viciado em crack. Dias antes da visita pude conversar com o rapaz e vi em seu olhos a vontade de vencer, de ter uma nova chance, começar de tudo de novo e não cometer os mesmos erros. Chegando em sua casa simples, como a maioria das residências da periferia, não o encontrei, havia saído na noite anterior e na na tarde de sábado, pelo menos enquanto estava conversando com seu pais, não havia retornado.

Foi então a chance de ouvir o relato de lutas de seu pais. A vida não é fácil pra ninguém, mas quem convive com um viciado em crack tem o seus conflitos duplicados. Por duas horas ouvi a relato da mãe diante das quedas e tentativas frustadas de seu filho viciado em reerguer a vida. Os pais sofrem juntamente com os filhos.

Para quem está distante, para quem tem medo de se envolver, um viciado em crack é apenas mais um vagabundo, sem moral, sem regras, sem vida. Mas para aquele casal naquela tarde de sábado o viciado era um filho precioso que ansiosamente aguardavam a volta pra casa.

Uma casa fria

Quando cheguei encontrei o pai tocando violão, a única coisa positiva que receberia naquelas duas horas de visita. A mãe falou sem parar e por várias vezes interrompia ou cortava a fala do pai. A casa era fria. Eles vivem em lutas, conflitos. O casal vive na altura dos 60 anos e com isso sentem também o peso da idade, as doenças, o cansaço e a falta de grana para os remédios caros e o endividamento com clínicas de recuperação para o filho viciado.

Enquanto ouvia o desabafo da mãe meu pensamento vagava procurando imaginar onde e de que maneira se encontrava o filho ausente. Onde dormiu? Com quem estava? Pessoalmente conheci o crack e sei o efeito que ele pode causar no usuário e em sua família. Um viciado perde a vida social, a moral, o senso de tempo e espaço. Vive como um zumbi e lentamente pode levar a família a um estado crítico onde cada recurso ou é para sustentar o vicio ou pagar clínicas de recuperação que na melhor das hipótese duram 6 meses de “cura”.

Mas, um vez que o viciado sai para rua e encontrando-se em liberdade algo dentro dele o leva para aquilo que ele não deseja, não quer. Ele luta, se desespera. Pede socorro. O vício é mais forte e aquele que deseja viver livre das drogas sucumbe e o ciclo de dor e decepção começa novamente.

Mas mais forte que vício, mais poderoso que qualquer droga é o amor de uma mãe que ora constantemente pela cura de um filho nóia. Naquela tarde de sábado ouvi palavras tristes mas em nenhum momento alguém disse que desistiria. Isso me fez pensar na minhas lutas, principalmente as lutas internas, aquelas que teimo em travá-las sozinho.

Somos todos nóias do pecado

A doença dos nóias talvez seja a minha e a sua. Aquilo que é objeto de fissura para um viciado, aquilo que o levará mais um vez para o sarjeta, o motivo que o separará da família, tudo isso é considerado, pensado e anotado. Mas diante da sensação fugaz do prazer tudo aquilo que lhe é mais caro se perde, restando o remorso, lágrimas e dor.

Qual é o seu vício, sua paranóia, o que te deixa na fissura? É fácil falar dos nóias e quão fraco eles são. Mais fácil ainda é esconder nossas fraquezas, pecados e desejos secretos. Questionamos o fato de alguém não ter forças para vencer uma pedra de crack e no entanto diariamente caímos nos mesmos pecados. Onde está  minha força moral para não mentir, para não cobiçar… sozinho eu não consigo. Onde está a força para vencer aquilo que nos destrói lentamente.

“Não se engane”

O pecado tem os mesmos efeitos do crack. Tira o senso moral, compromete a vida social, destrói famílias e leva homens e mulheres para a ruína. Quem acha que pode experimentar uma vida de pecados e achar que quando quiser e bem entender pode se ver livre dos laços vive uma vida de ilusão. Há muitas armadilhas por ai e uma delas é achar que posso sozinho controlar minha vida. Pense num nóia tentando sair do caos, da lama. É possível? Sim, é possível. Mas calcule o preço a ser pago. Lembro-me de um outro jovem que em lágrimas pedia ajuda para sair do vício da cocaína. Ele não falava mas as lágrimas gritavam pedindo ajuda. Os nóias, eu e você precisamos de ajuda.

“No momento em que decido fazer o bem, o pecado está lá para me derrubar. É pura verdade que eu me alegro nos mandamentos de Deus, mas é óbvio que nem tudo em mim é festa. Partes de mim se rebelam em segredo, e, quando menos espero, elas assumem o controle. Já tentei de tudo, mas nada resolve. Já não aguento mais. “Não há ninguém que possa me ajudar?” — não é essa a verdadeira pergunta?” Romanos 7.21-24 (Bíblia A Mensagem).

Hoje enquanto estou sóbrio preciso permitir a operação da Graça de Deus e ver a beleza de seu mandamentos. Viver uma vida de obediência, ou como diz Paulo viver “em Cristo” (Efésios 1.12).

Algo que me ajudou a vencer os vícios e a força do pecado é a mensagem de Romanos 8.1: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”

Hoje sou um homem livre e não vou permitir que nada, a não ser a Graça de Cristo, tenha domínio em minha vida.

Ao me despedir pude ver o sorriso dos velhos e cansados pais do jovem viciado. Ficaram felizes por apenas ouvi-los. Eu que deveria agradecer por terem demostrado tanta força e fé diante de tantas lutas.

 

O blog Reconectados é escrito por Eneas Oliveira, pastor e radialista. Atualmente lidera um grupo de cinco congregações adventistas na região de Parelheiros, zona sul de São Paulo. Marido da Priscila e pai da Stellinha.